Durante muitos anos, conheci de perto os nietzschianos, e impressionava-me a «vontade de poder» deles e delas, uma vontade de que nunca partilhei, não é mérito nem demérito meu. A vontade de poder formulada pelo alemão é a expressão natural da força, e eu fazia parte dos fracos, pelo que isso não me dizia respeito. A vontade de poder é também resistência ao sofrimento, capacidade que na altura pensei que não tinha. E é ainda imunidade à piedade. Não é um detalhe: não há vontade de poder sem indiferença à piedade. Eu observava o desdém que eles e elas tinham pela piedade e achava exibicionista, escusado, julgava que podiam abdicar disso sem grande sacrifício, mas claro que não podiam, de modo nenhum, uma pessoa forte que seja sensível à piedade fica contaminada pela doença dos fracos. Segundo Nietzche, a compaixão aumenta o sofrimento, uma vez que aumenta o número de pessoas em sofrimento. E a compaixão é um mecanismo que multiplica os pontos de vista e estilhaça a unidade do ego. Há que ter cuidado. O forte pode ser compassivo para com o fraco por simples gesto aristocrático ou asceta, ou para ganhar ainda mais ascendente sobre o fraco; mas quem é forte não se pode deixar dominar por quem é fraco, e não pode sobretudo aceitar o discurso da piedade, que segundo Nietzsche é um discurso débil, próprio de mulheres e de cristãos. Exercer a piedade, poupando os fracos, é contrariar as regras da evolução, deixar para trás os melhores elementos da espécie em favor da sobrevivência dos inaptos. Já nesse tempo eu lia Nietzsche «como um derrotado»: ou seja, interpretava o mundo de um modo que me era desvantajoso; mas tinha um entendimento incompleto da vontade de poder, que via como uma cedência ao desejo, quando não é nada disso. A vontade é uma decisão racional, ética, uma decisão de querer determinadas coisas. E de as querer através da força e não através da fraqueza. Nietzsche diz que os fracos são bons porque não têm força suficiente para serem maus, e demorei demasiado tempo a perceber isso, enfeudado no meu cristianismo pueril. Por isso esperava que os fortes deixassem de ser impiedosos connosco, sem saber que assim se tornariam um Sansão sem cabelo, despojados da raiz do seu poder. Elas e eles eram fortes porque nos desprezavam. Alterar isso era alterar a origem das espécies.
[lendo Anti-Nietzsche (2011), de Malcolm Bull]
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